Vencedor do Leão Queer para a melhor história de temática LGBT no último Festival de Veneza, em setembro, o drama “José”, oferece um olhar delicado sobre a encruzilhada das relações homoafetivas na Guatemala, país com altos índices de pobreza e forte doutrinação religiosa. A vitória do filme na mostra italiana acontece no momento em que o parlamento guatemalteco discute um projeto de lei que proíbe não só o aborto, mas também o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

“Encontrei muitas histórias tristes e até trágicas envolvendo jovens homossexuais durante minhas pesquisas no país”, lembra Li Cheng, diretor do premiado longa-metragem, uma das atrações do Festival do Rio. “Ouvi relatos sobre uma mãe que chegou a colocar uma faca no pescoço do filho, quando este confessou que era gay, dizendo: ‘Não fale sobre isso, não quero ouvir sua história!’. Outro adolescente de 17 fez a mesma revelação e ouviu a mãe dizer que ele nunca iria conhecer o que era o amor de verdade. É muito duro dizer uma coisa dessas para alguém tão jovem.”

Chinês radicado nos Estados Unidos, onde se formou em biotecnologia, Cheng passou dois anos naquele país, colhendo testemunhos e terminando de escrever o roteiro de “José” com o americano George F. Roberson, também produtor do filme. “Os casos de jovens expulsos de casa por terem revelado-se gays são inúmeros. Além da pobreza e, consequentemente, da carência de educação formal, há um componente agravante, que é a grande religiosidade. Metade dos guatemaltecos ou é católica e ou evangélica”.

“José” é resultado de uma longa peregrinação da dupla por 12 países da América Latina, convivendo e entrevistando pessoas de 20 cidades, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro. “Quase fizemos o filme aqui no Brasil, porque encontramos histórias que nos inspiraram muito. Mas depois daqui, fomos visitar a América Central, região conhecida, e encontramos na Guatemala uma realidade mais urgente: está entre os 10 países mais perigosos do mundo, os índices de violência contra a mulher, morte de crianças e homofobia são assustadores”.

No início da viagem pelas Américas, Cheng e George tinham em mente fazer um retrato de um jovem trabalhador de origem humilde, típico de um grande centro urbano. “Queria fazer algo sobre a cultura latina, a partir de um núcleo familiar de classe média baixa da região, que é subrepresentada pela mídia. Conhecemos muitos caras que vivem nos subúrbios, levam duas horas para chegar ao trabalho e ganhar o equivalente a US$ 5 dólares por dia, como na Guatemala – aqui no Brasil a média é um pouco maior, uns US$ 10”.

A sexualidade do protagonista ganhou força já durante as pesquisas. “Para um cara pobre, ser gay só aumenta o grau de marginalização”, atesta Cheng. ‘Conhecemos vários homens que têm problemas com a família por causa de sua orientação sexual, e achei essa perspectiva interessante. O resto da viagem foi focado em grupos LGBT, que encontramos em redes sociais e aplicativos para celulares. Explicávamos o objetivo de nosso projeto e marcávamos encontros em lanchonetes para conversarmos”.

O cruzamento de todos esses elementos ganhou o corpo de José (Enrique Salanic), um rapaz de 19 anos de idade que vive com a mãe (Ana Cecilia Mota) em um apartamento minúsculo. Esta divide o tempo entre a igreja e a venda de sanduíches em um ponto de ônibus da cidade. José, por sua vez, passa o dia servindo comida em um fast food e buscando parceiros sexuais em um aplicativo para encontros. Quando conhece Luis (Manolo Herrera) e se apaixona por ele, hesita em ficar com a mãe ou perder o amor.

O conflito se adensa quando a mãe descobre que o filho não está “seguindo os caminhos do Senhor”, como apregoa um pastor dentro do ônibus que o leva de casa para o trabalho, e vice-versa. “A homofobia é um conceito muito amplo e poderoso. É por isso que você vê (o presidente americano Donald) Trump o usando como instrumento e arma porque, na verdade, a percentagem de gays na população é pequena e é mais fácil culpá-los por tudo”, observa Roberson.

“Por outro lado, se você for escutar o lado oposto, não com o grupo, mas com o indivíduo, a história é diferente. Conversando com uma mãe de um gay, com sua família mais próxima, ou com seus amigos, percebemos que são mais abertos a um tipo de sexualidade que é condenada pela maioria. Eles não ligam. Mas, dentro de uma igreja, por exemplo, há essa grande ideia de que o comportamento desviante é um perigo, um pecado. Era isso que queríamos mostrar no filme”, explica o produtor.

Assim como “Joshua Tree”, seu primeiro filme, sobre mãe divorciada que tenta sobreviver ao impacto da crise econômica de 2008, “José” explora a dinâmica do núcleo familiar – agora latino-americana. “Há diferenças significativas entre a família americana, a latina e a chinesa. Nos Estados Unidos, elas são mais independentes, os pais criam filhos para saírem de casa e criarem suas próprias famílias.”, observa Cheng.

Segundo o diretor, as famílias chinesas são parecidas com as latinas. “Na maior parte dos países asiáticos, na verdade, os laços familiares são muito fortes, como aqui, na América Latina. Não importa a idade que você tenha, se você tiver um problema financeiro, pode voltar para a casa dos pais sem qualquer problema. Nos Estados Unidos, ao contrário, você será considerado um fracassado. Acho legal essa coisa de o americano incentivar a independência dos filhos, o sucesso financeiro. Mas eles perdem em calor humano. As famílias têm que tomar conta dos seus, ou perderá seu sentido”.

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