Espectadores preconceituosos e racistas vão passar longe de “Ilha”, um filme baiano com sexo entre homens negros. O mesmo vale para quem não aguenta cenas pesadas, como as que envolvem abuso sexual infantil, tortura e a morte brutal de um cão. Mas Ary Rosa, codiretor do longa exibido nesta quarta-feira em competição no 51º Festival de Brasília, quer deixar uma coisa clara.

— Não abrimos mão da nossa liberdade criativa — diz Rosa, ao lado da parceira Glenda Nicário, com quem também dirigiu “Café com canela” (2017), melhor filme pelo júri popular no último Festival de Brasília.

Atente, por exemplo, para a sinopse: “Ilha” é um filme sobre o making of de um filme dentro do filme. Talvez a premissa não seja imediatamente fácil de ser compreendida, e o longa de fato não tem medo de experimentar linguagens. Há até uma cena em que um personagem olha para a câmera (o recurso conhecido como “quebra da quarta parede”) e diz: “Vocês terão que engolir minha subjetividade”. Tudo isso pode soar pretensioso e hermético, mas o desenrolar da história cativou a plateia do Cine Brasília, que aplaudiu a obra intensamente.

Ambientada numa ilha fictícia de onde “ninguém nunca sai” (o motivo não é explicado explicitamente), a ação começa quando o traficante Emerson (Renan Motta), que mora nesse isolado pedaço de terra, sequestra o premiado cineasta Henrique (Aldri Anunciação), do continente, para obrigá-lo a realizar um filme sobre sua vida. Inicialmente o profissional recusa a proposta, mas cede após ser torturado e ameaçado.

Emerson contrata o diretor de fotografia Thacle de Sousa (interpretado pelo próprio) para registrar todo o processo de convencimento e os bastidores das filmagens. É através da câmera caótica e subjetiva de Thacle que nós, espectadores, vemos tanto o filme real (“Ilha”) quanto o “filme dentro do filme”. Sim, trata-se de metalinguagem levada ao extremo.

Mas por que Emerson escolheu Henrique — um cineasta consagrado e ousado no passado, mas que agora só produz filmes caretas? Deduzimos, aos poucos, que um dos motivos é o fato de ambos serem gays. Ou seja, Henrique teria sensibilidade para dirigir a cinebiografia de Emerson. E, no processo, os dois se apaixonam.

— Enquanto cineasta gay, não me via representado no cinema clássico, então achava importante esse lugar de afeto homossexual — afirma Ary Rosa.

Nas gravações do “filme dentro do filme”, descobrimos passagens cruciais da vida de Emerson, como o fato de ele ter sido abusado sexualmente pelo pai. No encontro com jornalistas, Ary Rosa e Glenda Nicácio foram questionados se a cena não poderia reforçar o discurso equivocado — mas frequente em falas de ódio — de que a homossexualidade é fruto de experiências traumáticas como essa. Ary Rosa concordou com a indagação:

— É uma preocupação minha, sim. Pensei até em retirar essa cena. Trabalhamos com pontos perigosos, sempre no limite da possibilidade. Mas o Henrique, o personagem cineasta, serve de contraponto: ele é um gay bem resolvido. Pelo menos foi essa a minha tentativa.

Embora o elenco de “Ilha” seja majoritariamente negro, a raça dos personagens não estava especificada no roteiro de Ary Rosa, segundo o ator Aldri Anunciação.

— Não acordo pensando “sou negro e vou enfrentar o mundo”. Não vivemos apenas de questões identitárias, mas também estéticas e narrativas — conclui o ator.

Para a diretora Glenda Nicácio, a ilha enquanto espaço de aprisionamento pode “remeter à ideia de uma província de onde ninguém sai”:

— Muitas crianças ouvem essa frase, de que não podem ir para outro lugar, e acabam acreditando, sentindo-se presas e resignadas, sem a possibilidade de se mudar.

Fonte: O Globo

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