Quando tinha 7 anos de idade, o paulistano Iran Giusti apanhava dos colegas de escola e não sabia por quê. Alguns anos depois, entendeu que eram seus gestos e gostos femininos o motivo dos tapas na cabeça e empurrões pelas costas. “Eu nem tinha noção de como seria minha afetividade, se no futuro eu iria gostar de homens ou mulheres”, explica ele. “Mesmo assim, eu já sofria uma violência que persegue a comunidade LGBT em todas as fases da vida.”

O Uol conversou na tarde de sexta-feira, 31 de agosto, oito dias depois que uma criança de apenas 9 anos, autodeclarada gay, se matou no quarto da casa onde morava com a mãe e duas irmãs. O norte-americano Jamel, segundo a mãe Leia, sofria bullying dos colegas e essa seria a razão do seu suicídio. O caso comoveu o mundo. Nas redes sociais, dividiu os que culpavam a mãe, os que culpavam a escola e os que culpavam a sociedade pela tragédia.

Iran, jornalista, gay, cisgênero (pessoas que se identificam com o sexo com o qual nasceram) acredita que a culpa pela tragédia não é apenas da escola, acusada pela mãe de ter permitido o bullying, mas também dos pais dos colegas de Jamel.

Iran entende do assunto. Em uma antiga edificação na Bela Vista, centro de São Paulo, ele diariamente recebe gays e transgêneros (os que não se identificam com o sexo com que nasceram) expulsos da casa das famílias. A maioria das pessoas atendidas pelo projeto Casa1 tem de 18 a 21 anos – idade que, pela legislação brasileira, não é mais tarefa dos pais a proteção dos filhos. Rejeitados pela família, eles são acolhidos e orientados pela equipe do projeto, cujo objetivo é transformá-los em cidadãos autônomos e independentes. A seguir, os principais trechos da nossa conversa.

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Você convive com muitas histórias de violência na Casa1. Violência da família, na escola, nas ruas. Na sua opinião, mortes como a de Jamel podem ser evitadas?

Poderiam e deveriam ser evitadas, mas é preciso que haja uma combinação de vontades da família, da escola, do estado, da sociedade. Na história do Jamel, me incomoda um pouco o esforço da mãe em responsabilizar principalmente a escola pela tragédia. Mesmo que se prove que a morte dele seja consequência do bullying que sofreu, ainda fica a pergunta: cadê a responsabilidade dos pais das crianças que agrediram psicológica ou fisicamente o colega? A escola deve trabalhar na prevenção deste tipo de violência, mas a formação moral é, a meu ver, uma coisa que acontece dentro da família. Além disso, não faz sentido acreditar que exista apenas um culpado. A violência contra a comunidade LGBT precisa ser combatida com investimento em saúde pública, educação de professores e da família, segurança e distribuição de renda.

Explica melhor a distribuição de renda…

Das 140 pessoas, homens e mulheres, que precisaram morar aqui na casa, apenas três estavam cursando a faculdade. O restante era totalmente excluído. Tinham sido expulsos de casa porque o pai ou a mãe não queria mais conviver com eles e com seu “jeito”, sua “sem-vergonhice”. Estavam na rua porque a madrinha ou a tia não podiam abrigá-los – elas tinham perdido o emprego ou havia muitos filhos na casa para alimentar. Finalmente, eles não tinham formação nenhuma. Ao contrário de gays da classe média, não estudaram porque eram agredidos na escola.

Existem estudos que estimam que, entre os trans, o índice de evasão escolar seja de 80%. Aqui na Casa1, 90% da população trans não conseguiu se manter no colégio em função da violência psicológica, física e sexual.

Sexual?

Temos muitos relatos de mulheres trans estupradas por colegas na escola entre os 12 e 15 anos de idade. Entre os homens trans, a violência sexual acontecee mais na adolescência e vida adulta e entra na categoria corretiva. Eles são violentados para ser castigados, para aprenderem que estão errados.

Você tem ideia de quantos se suicidam? Ou tentam?

Não existem dados oficiais, porque o Estado não se preocupa em mapear nem o tamanho da comunidade LGBT quanto mais a violência a que ela é submetida. Mas estima-se que jovens gays e trans têm 4 vezes mais chance de tentar o suicídio do que os jovens heterossexuais.

O suicídio raramente acontece na infância. O bullying pode mudar este cenário?

A homossexualidade na infância é um tabu, um tema pouco discutido. Aliás, a sexualidade na infância também é um tabu. Sem espaço para falar do assunto, as pessoas confundem sexualidade na infância com prática sexual. Enquanto o sexo significa o ato sexual em si ou o órgão genital (masculino ou feminino), a sexualidade não tem a ver com menino com menina; menina com menina, menino com menino. Tem a ver com conhecer seu corpo, respeitar o seu corpo e o corpo dos outros, tem a ver com afetividade, com identidade.

Você acha que uma criança pode ser homossexual? Ou trans? Você apanhou aos 7 anos sem ter consciência de ser gay, mas ao mesmo tempo criou a expressão Criança Viada….

Criança Viada foi um termo que usei em um blog, em 2013. As pessoas me enviavam fotos delas mesmas quando eram crianças, em poses “pintosas”: meninas masculinizadas e meninos afeminados. Era uma celebração do poder ser, algo alegre, feito logo depois que a Lady Gaga lançou a música Born this Way. Não tinha nada sexual atrelado ao conceito. Crianças não têm essa questão de papel de gênero. Mas os adultos têm e é exatamente por essa razão que seus filhos podem agir como homofóbicos mesmo sem entender o significado disso.

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