Está em cartaz nos cinemas do país o documentário Abrindo o Armário, dos diretores Dario Menezes e Luis Abramo. O objetivo é mergulhar nos processos de conquista e libertação do movimento gay no Brasil e, para isso, entrevistados de diferentes gerações e lugares do país contam como enfrentaram resistências, violências e preconceitos.

Curiosamente, as pessoas que passam na tela não são exatamente anônimas, mas pela amplitude temporal e área de atuação, dificilmente alguém reconhecerá todos. O filme começa com uma bela homenagem ao longa Madame Satã (2002). Em seguida, entra Linn da Quebrada, ainda sem a produção para um show, apenas andando pela rua.

Aliás, o filme faz uma opção ousada: não apresenta o nome de nenhum depoente, ou seja, se você não souber quem é aquela pessoa, ou lugar de onde ela está falando, não se tem informação nenhuma sobre ela. Apenas o que ela está dizendo. Num primeiro momento, isto dificulta bastante a gente se conectar com aquelas histórias, porque elas não parecem se unir em nada com a anterior – a não ser pelo fato de que aquelas pessoas são gays. Várias vezes, a fala seguinte parece dizer exatamente o oposto da anterior.

Mas a coisa muda de figura quando elas reaparecem, como se depois de uma “rodada de apresentação”. Na nossa cabeça de desconstrução e modernidade líquida, estamos constantemente buscando contextualização, de falas e de pessoas, e, sobretudo quando discordamos, perdemos mais tempo tentando encontrar furos para provar nosso ponto de vista do que se abrindo para o que a pessoa nos diz.

Assim como Dogville (2003) destrói nosso desconforto com a total ausência de cenário, o depoimento de um rapaz que nunca apareceu no filme, e surge faltando uns 20 minutos para acabar, nos arrebata o coração e enche os olhos de água ao contar que apenas com 24 anos deu o primeiro beijo. Ali se vê que os depoimentos não se tratam de “quem”, mas de pessoas e isso deve bastar.

Depois é que se descobre que quem você viu foi Linn, Jup do Bairro, Bayard Tonnelli e Ciro Barcelos (ambos do Dzi Croquettes), Marlon Parente (diretor do filme Bichas) e Sérgio Bright (pessoa que eu nunca vi e sempre amei sem saber). Um dos pontos mais especiais é o encontro do escritor João Silvério Trevisan (74) e o “gamer celebridade” Mika (22), debatendo sobre homossexualidade nas suas vidas e as áreas em que atuam.

Depois de sair dos cinemas, o filme deve passar no Canal Brasil e na Globo News, mas insisto que é importante ir às salas para vê-lo, até como forma de demonstrar que há público e interesse sobre o assunto. É legal de se observar a forma que os documentários vêm retratando os gays, pegando os títulos São Paulo em Hi-Fi (2013), Dzi Croquettes (2009), Lampião da Esquina (2016) e Divinas Divas (2016), para citar alguns, indo até o formato ousado de Abrindo o Armário.

E como diz o próprio trailer: a gente abriu o armário, só falta sair de dentro! Mas antes de sair, o filme convida os espectadores a dar uma olhadinha em como era ali dentro.

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