Erica Cristina da Silva Ferreira, de 54 anos, e Jorge Dionísio Ferreira, de 49, não imaginavam que iam viralizar nas redes sociais e se tornariam conhecidos nas ruas de Franco da Rocha, cidade da Grande São Paulo, onde vivem. Mulher trans, Erica realizou o maior sonho de sua vida ao se casar com Jorge durante a Parada LGBT de Franco da Rocha no último dia 22 de julho.

Juntos há 16 anos, ambos trabalham como catadores de lixo reciclável na cidade. Eles aguardavam o documento com o nome feminino de Erica para se casarem, e contaram com a ajuda da prefeitura, de amigos e da ONG Instituto Nice para organizar a cerimônia e se arrumarem para o grande dia.

“Para mim foi de desmaiar. Foi além do que eu sonhava. Foi pra me encher mais de alegria o meu espírito. Minha alma era meio abatida até aquela época porque não tínhamos direitos, não éramos reconhecidos”.

O reconhecimento como mulher, gênero com o qual Erica se identifica desde a infância, ela recebeu por meio de uma certidão de nascimento com seu nome feminino. Outro reconhecimento que Erica tem recebido é o das pessoas na rua, onde o casal se tornou popular depois do casamento.

“Eu não consigo andar na rua. Não aguento mais abraçar mulheres, homens e crianças o dia inteiro. É maravilhoso”, diz Erica.

Jorge acha até que as pessoas em Franco da Rocha estão diferentes depois do casamento deles e conta que passou a ver outros casais gays andarem de mãos dadas nas ruas.

“Uma colega da Erica contou que antes maltratava o filho e que estava sendo injusta. Aí passou a chamar o filho de filha, que é feminino igual a Erica. Ela falou que graças ao casamento, abrimos as portas para acabar com o preconceito.”

Erica conta que foi expulsa de casa por seu pai quando tinha entre 11 anos por “ser diferente”. Nas ruas, acabou se prostituindo.

“Ninguém aceita totalmente, principalmente os pais. Às vezes nos jogam num mundo que é terrível. Tem muita coisa ruim lá fora. Meu pai me tocou de casa e eu acabei numa esquina, acabei me prostituindo muito jovem.”

O relacionamento

O ciumento da relação é Jorge. Ele conta que não gostou de Erica ter chegado ao altar acompanhada de dois ‘go go boys’.

“[Quando a vi chegar ao altar] Senti uma felicidade muito grande. Só dos go go boys que eu não gostei. Eu sou realista!”, diz ele, aos risos. “Ele falou para um deles ‘Você está encostando demais'”, entrega Erica.

“E não sou ciumenta. Eu amo quando mulheres na rua pedem um beijo para ele, me sinto tão orgulhosa. Ele é ciumentinho (risos) mas é maravilhoso, ele me trata de verdade como eu sinto que mereço. Me sinto muito segura com ele”, diz Erica.

O futuro

Erica e Jorge têm muitos sonhos. Um deles é continuar trabalhando juntos – Erica não consegue se imaginar longe do amado “nem por dez minutos”, por medo do que pode acontecer. “É ele por mim e eu por ele, não temos mais ninguém no mundo. E eu tenho diabetes alta, tenho medo de cair na rua e ele não estar por perto”, justifica ela.

Para isso, eles sonham em conseguir uma carrocinha elétrica de reciclagem para facilitar na hora de carregar o peso. “Eu tenho quase 60 anos, não aguento mais por muito tempo carregar 600 quilos por dia”, diz ela.

Jorge conta que colocou até um sonzinho na carroça. Os dois percorrem a cidade juntos catando papelão e material reciclável, que vendem em cooperativas e em um ferro-velho.

Outro sonho do casal é conhecer o mar.

“Eu tenho o sonho de conhecer o mar. Nós somos dois sonhadores. Quando saímos [para trabalhar] e ele coloca a música do Raça Negra que eu gosto para tocar, que fala das ondas, sabe? Quando toca essa música parece que eu vou flutuando, não é mais eu. Aí trabalho com mais amor, mais afinco. Eu amo o que a gente faz, é humilde, mas é digno e muito abençoado. Eu nunca quis deixar ele nem por um dia.”

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