Não é por trazer um tema novo nem por adotar um formato original que “Abrindo o Armário” se afirma como um documentário relevante no Brasil de hoje.

De fato, outros filmes vêm tratando das dificuldades de se assumir homossexual. E, embora o documentário de Dario Menezes e Luis Abramo traga belos planos de transição entre os depoimentos, há um predomínio de entrevistas filmadas conforme as convenções das “cabeças falantes”.

No início, a escolha dos entrevistados parece aleatória. Para além de todos se assumirem como gays, o leque é amplo. Há negros e brancos, jovens e menos jovens, ricos, pobres e remediados, gente da periferia e gente do centro, figuras públicas e anônimos.

Aos poucos, porém, percebemos que mais importante do que as identidades que indicam de onde cada pessoa vem são as transformações e os trânsitos possíveis. O filme não revela logo os nomes e profissões dos personagens, que aparecem somente nos créditos finais. Isso gera certo desconforto, mas contribui para fortalecer algo importante: as identidades não precisam ser fixas.

Não é à toa que Linn da Quebrada, MC que se afirma como “bicha, trans, negra e periférica” ocupa lugar central no roteiro. Ao lado de Jup, com quem se apresenta, Linn faz, no filme, o trajeto de um apartamento em um conjunto habitacional popular, onde mora, até uma casa de shows badalada no centro de São Paulo.

As diferentes vozes testemunham de alguns pontos comuns: a violência, a dificuldade no assumir-se. Em um momento tocante, o escritor João Silvério Trevisan conta da censura que sofreu —e que lhe custou o abandono da carreira de cineasta.

Fala-se, além disso, do incômodo diante da recorrência, no audiovisual, do personagem efeminado como melhor amigo da protagonista, como alguém que entende de decoração, maquiagem, cabelo.

“Tô bonita?”, questiona Linn à plateia em um de seus hits. “Tá engraçada”, é a resposta. E a música continua: “Me arrumei tanto pra ser aplaudida e só deram risada”.

Em dado momento, um dos entrevistados questiona a procura de algo que seja comum a todos os homossexuais, colocando em xeque sobretudo essa visão caricata de alguém alegre e engraçado. “Gays são sobretudo seres humanos; eles têm o inferno e o céu de todo ser humano”, diz ele.
Percebe-se, então, que a diversidade no elenco de entrevistados não é obra do acaso, mas o fundamento do filme. A delicadeza na montagem só
corrobora os dizeres de Linn: “Já falaram tanto de nós e por nós… Agora chegou a hora de nós falarmos”.

Encontrou algum erro no post? Fale pra gente!