“É complicado”, suspira Peppermint. “Atores talentosos, diretores de casting e todo mundo envolvido em fazer arte deveriam se sentir livres para criar da maneira que acham melhor. Num mundo perfeito, qualquer um poderia interpretar qualquer coisa.”

Estou falando com Peppermint – a primeira mulher transgênero a criar um papel principal num musical da Broadway, Head Over Heels – porque, mais uma vez, a questão de atores cis/héteros pegando papéis LGBTQ rendeu manchetes, dessa vez com o comediante inglês Jack Whitehall supostamente sendo escalado para Jungle Cruise (que aparentemente não é um pornô gay). Ele deve interpretar o primeiro personagem principal gay da Disney, apesar de ser um homem heterossexual.

Não é a primeira vez que Hollywood toma uma decisão assim: Mês passado saiu a notícia de que Scarlett Johansson estrelaria o filme Rub & Tug, interpretando um homem trans (mais tarde ela desistiu do projeto). Quase todos os personagens principais gays do filme de 2008 Milk: A Voz da Igualdade – biografia do lendário ativista pelos direitos gays Harvey Milk – eram interpretados por homens héteros. Em A Garota Dinamarquesa, Eddie Redmayne fez a protagonista, uma mulher trans. E a lista continua.

Geralmente o pessoal queer não fica feliz quando saem notícias assim, mas para quem é de fora, a razão para o descontentamento nem sempre é tão óbvia. Atuar, por definição, é sobre se transformar num personagem; não sobre quem você realmente é. Pesquisas da YouGov confirmam que muita gente compartilha essa visão, com 70% do público britânico não vendo problema com uma pessoa hétero escalada para fazer um protagonista gay num blockbuster da Disney.

“Acho que, idealmente, qualquer um deveria poder interpretar um papel perfeito para si”, continua Peppermint, “mas agora, pessoas gays, trans e queer precisam participar quando contam suas histórias. Hollywood tem um histórico péssimo de criar filmes e fazer dinheiro com as experiências de pessoas marginalizadas, sem que essas pessoas tenham sua voz ouvida no processo.”

Para Peppermint, é principalmente uma questão de autenticidade, não só em quem pode interpretar papéis queer, mas como esses papéis são escritos, desenvolvidos, apresentados e interpretados: “Precisamos reconhecer que a arte tem um papel em como pessoas marginalizadas são tratadas e vistas na sociedade. Muitas vezes, Hollywood faz essas histórias sobre pessoas queer, trans e minorias e mostra a questão de forma errada: há material ofensivo, narrativas trágicas, personagens de uma dimensão e estereotipados com pouca profundidade.” (Veja Stonewall: Onde o Orgulho Começou de 2015 como evidência.)

O ator Nick Westrate concorda: “Há uma grande riqueza de comportamento, história cultural e experiências que, como pessoa queer, você simplesmente conhece. Como uma pessoa hétero, você perde muita coisa, e anos de preparação não vão mudar isso.” Pessoas gays crescem aprendendo como assumir características hétero, diz Nick, já que para elas, alternância de código muitas vezes significa sobrevivência. “Nossa vida inteira às vezes é premeditada em interpretar uma pessoa hétero”, ele me diz. “Pessoas hétero interpretando gays podem fazer sua pesquisa e assistir Ru Paul’s Drag Race, mas não têm acesso à mesma profundidade de conhecimento.”

Há uma preocupação em como personagens queer são retratados no palco ou nas telas, mas cada ator com quem falei deixou claro que suas preocupações vão além de fazer arte boa: personagens LGBTQ muitas vezes são as únicas pessoas queer visíveis na mídia, e com essa plataforma vem uma grande responsabilidade.

Quando Rebecca Root foi escalada como protagonista da sitcom da BBC Two Boy Meets Girl, ela e a série fizeram história. Na estreia, em 2015, essa era a primeira comédia/drama da TV britânica com o papel principal de uma personagem transgênero interpretada por uma atriz trans. “Sei que a ideia de ser um modelo nem sempre é confortável para todo mundo”, me diz Rebecca, “mas não fico feliz com esse rótulo. É sobre ser vista – dizer ‘Essa sou eu, e posso fazer o que faço’. Representação real não é apenas ver um personagem com que você consegue se identificar; é ver pessoas de verdade trabalhando nos níveis mais altos da indústria”.

“A maioria das pessoas nunca conheceram alguém trans, e muitas crianças às vezes conhecem uma pessoa gay mas não sabem”, diz Peppermint. “É de um valor imenso inspirar jovens quando você se sente ostracizado, estranho ou diferente. Ver pessoas como você prosperando é incrível, tanto para pessoas queer como para seus amigos e família.” E, como Peppermint acrescenta, um homem cis interpretando uma mulher trans, que depois tira a peruca e aparece numa estreia como um cara de barba, só reforça a narrativa perigosa de que mulheres trans são homens, não mulheres.

Um ator gay poderia usar a plataforma de um filme da Disney para falar sobre suas próprias experiências, lutar pela igualdade LGBTQ e ser uma figura queer visível para muitos jovens. Jack Whitehall, não por culpa sua, simplesmente não pode fazer isso.

Enquanto é racional escalar pessoas queer para papéis queer, é preciso considerar realidades práticas da indústria também. Diretores de casting estão sob pressão para contratar quem eles veem como a melhor escolha para um papel, e perguntar a uma pessoa qual é sua sexualidade quando ela entra para o teste dificilmente seria visto como um sinal de progresso. “Meu trabalho é basicamente conseguir a pessoa certa para o papel certo”, explica Amanda Tabak, diretora de casting trabalhando em Londres. “Não vamos perguntar a sexualidade de alguém quando a pessoa passa pela porta – isso não é relevante.”

Amanda deixa claro que se há um papel para uma pessoa chinesa, escalar alguém que não é chinês seria inútil (apesar de quem escalou Scarlett Johansson como uma personagem japonesa em Ghost in the Shell claramente não ver isso como problema). “A sexualidade das pessoas não está escrita na cara delas”, diz Amanda. “Não é isso que dita se você vai conseguir o trabalho ou não.”

É uma perspectiva que o ator Giovanni Bienne – presidente do sindicato de atores Equity’s LGBT+ – só consegue simpatizar em parte. Giovanni sente que as expectativas para atores LGBTQ em teste é diferente das de seus colegas cis e héteros. “Não faço testes para muitos papéis de interesse romântico hétero, mas meu empresário disse que acha que ajuda – se for o caso – continuar no personagem na conversa com os responsáveis depois”, ele diz, acrescentando que diretores de casting gostam de suas leituras, mas perguntam se ele consegue “manter” a pose. “Isso não acontece com atores héteros. Sean Penn não fez um teste para Milk, mas se tivesse feito, ele não teria impressionado a equipe de casting e depois ouvido se conseguia manter sua pose ‘gay’.”

Giovanni aceita que para atores menos conhecidos, a sexualidade pode não ser clara para quem está escalando, mas atores que não são LGBTQ também pode ajudar a nivelar o terreno. “Um amigo me ligou recentemente dizendo que ele foi procurado para um papel gay, mas que não parecia certo”, ele diz. “Eu disse para ele ir em frente, que é assim que as coisas são, sobre ter as mesmas oportunidades. No final, num esforço para nos apoiar, ele decidiu não ficar com o papel.”

Outro ponto sempre mencionado por quem sofre para compreender a insatisfação com Whitehall é que, no final das contas, entretenimento é um negócio. “Atores famosos interpretando papéis LGBTQ trazem conscientização, mas também trazem pessoas para assistir o filme”, diz Amanda Tabak. Mas depois que uma geração de atores gays se perdeu na crise da AIDS, talvez a indústria tenha uma responsabilidade em ajudar esses novos astros, e tornar Hollywood um lugar menos hostil para os abertamente gays. “Quando ouvimos que um hétero pegou um papel queer porque é um grande astro, acabamos de perder outra chance para uma pessoa fazer seu nome como uma celebridade queer”, diz Nick. “Simples assim.”

Claro, escalar Jack Whitehall como o primeiro personagem gay da Disney não é em si o problema, mesmo parecendo uma oportunidade perdida ou uma escolha preguiçosa num primeiro momento. O problema é que escalando atores héteros para papéis gays, não estamos nos beneficiando da experiência que pessoas queer trazem para papéis queer, não estamos deixando pessoas queer contarem suas próprias histórias, e estamos colaborando para a falta de visibilidade LGBTQ na vida real em Hollywood.

Nenhum ator com quem falei disse que só pessoas não-héteros deveriam fazer papéis LGBTQ, ou vice-versa, mas que um esforço consciente precisa ser feito por todos para ajudar a conseguir um campo justo. Isso significa aceitar que algumas pessoas queer não foram escaladas para papéis héteros. Significa entender que pessoas LGBTQ são uma minoria que precisa de modelos. Significa não dizer que não há um astro queer para o papel, mas criar um. E significa que se a Disney quer fazer algo importante criando um personagem gay, eles provavelmente deveriam se esforçar para escalar um ator gay também.

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