Um número cada vez maior de norte-americanos apoia hoje direitos iguais para os gays, lésbica e transgêneros. É tentador acreditar que esse foi um passo inevitável, mas há menos de uma década, muitos democratas, inclusive Barack Obama, não se manifestavam publicamente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A velocidade com que os direitos LGBT se tornaram um assunto premente, até para muitas denominações religiosas, representa uma transformação cultural vertiginosa.

E o que essa revolução significa para a Igreja Católica, uma instituição antiga que pensa em termos de séculos e tem uma visão da sexualidade humana contrária à tendência cultural flexível e mutante de hoje?

Bom, na semana passada, o Vaticano usou o termo “LGBT” talvez pela primeira vez em sua história, em um documento preparado para um encontro importante que acontecerá em outubro, entre bispos e grupos da juventude. “Alguns jovens LGBT querem se beneficiar de uma maior proximidade e proteção da Igreja”, diz o texto. E também reconhece que muitos católicos mais novos não concordam com os ensinamentos sobre a união homoafetiva.

Você pode até achar que não há nenhuma novidade aí, mas adotar a expressão é um ato, no mínimo, emblemático de uma mudança emergente na postura da Igreja em relação aos gays, lésbicas e trans. Seu material de ensino geralmente usa o termo “homossexual” ou se refere àqueles que têm “tendências homossexuais”, o que limita a humanidade multidimensional da pessoa em relação aos mecanismos do sexo. Usar a descrição LGBT, geralmente preferida por muitos membros dessa comunidade, é sinal de respeito.

O Papa abriu espaço para um diálogo mais profundo e autêntico em relação à forma como a Igreja pode manter um pé na tradição sem ter medo de invadir as experiências vividas pelos outros. Quando Francisco fez o questionamento papal mais famoso da história, cinco anos atrás – “Quem sou eu para julgar?” –, até o uso coloquial que fazia da palavra “gay” causou o maior furor nos círculos conservadores da instituição. E embora o pontífice defenda vigorosamente os ensinamentos da Igreja que afirmam que o casamento é exclusivamente a união entre um homem e uma mulher, prefere ouvir e conversar pessoalmente em vez de condenar e denunciar. Já se encontrou com gays e, quando conversou em particular, no mês passado, com um chileno sobrevivente da violência sexual, disse-lhe que Deus o tinha feito gay e o amava.

Há outros sinais de progresso: o famoso padre jesuíta e escritor James Martin, que foi proibido de se apresentar em algumas instituições católicas nos EUA simplesmente por encorajar a Igreja a estabelecer uma proximidade com a comunidade LGBT, foi recentemente convidado como palestrante e destaque do Encontro Mundial de Famílias, evento patrocinado pelo Vaticano que será realizado em Dublin ainda este ano. Na última convenção, há três anos, realizada na Filadélfia, a única discussão sobre as questões LGBT foi levantada por gays católicos celibatários, falando sobre castidade.

Essa ênfase do Papa no encontro e no engajamento já começou a influenciar outros líderes religiosos. O cardeal Joe Tobin, de Newark, deu as boas-vindas à comitiva de católicos LGBT na catedral da cidade, no início deste ano. Na edição deste mês da revista U.S. Catholic, um diácono da diocese de St. Petersburg, na Flórida, escreveu um artigo comovente sobre sua filha transgênero e desafiou o conceito de “ideologia de gênero”, termo que vem sendo usado pela instituição católica para desacreditar o movimento pelos direitos trans.

Apesar do progresso, a Igreja tem que fazer muito mais, não só para admitir a humanidade dos membros da comunidade LGBT como reconhecer que a grande maioria deles também quer um relacionamento amoroso gratificante, exatamente como os casais heterossexuais. Depois da decisão da Suprema Corte de 2015, legalizando o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o cardeal Blase Cupich de Chicago pediu um respeito “verdadeiro, e não retórico” para gays e lésbicas. A decisão da justiça, a qual ele se opôs, “ainda oferece uma oportunidade de reflexão madura e serena”, escreveu.

Os líderes católicos norte-americanos deveriam pensar em analisar a proposta do bispo Franz-Josef Bode, vice-presidente da Conferência dos Bispos Alemães, que estimula uma discussão ponderada em relação a uma bênção especial para os católicos em relacionamentos homossexuais. “Embora o ‘casamento para todos’ de hoje seja bem diferente do conceito de matrimônio da Igreja, o fato é que ele é uma realidade política. Temos que questionar nossa reação àqueles que estão nesse tipo de relação e, ao mesmo tempo, envolvidos com a paróquia, saber como acompanhá-los pastoral e liturgicamente”, afirma o bispo.

A própria linguagem da Igreja em relação aos LGBT é um obstáculo ao compromisso que professa com a dignidade humana: ao mesmo tempo em que o catecismo, que detalha os ensinamentos religiosos, proíbe qualquer violência ou “discriminação injusta” em relação a gays e lésbicas, também descreve a intimidade sexual entre eles como “intrinsicamente errada”. Antes de se tornar Papa, o cardeal Joseph Ratzinger escreveu, em 1986, que a homossexualidade representa uma “forte tendência à malignidade moral intrínseca”.

Muitos católicos LGBT também são forçados a viver no que o reverendo Bryan Massingale, teólogo da Universidade de Fordham descreve como “armário aberto”. Isso vale particularmente para os colégios onde, de uns anos para cá, mais de 70 funcionários LGBT da igreja e professores foram despedidos ou perderam o cargo, sujeitos a um escrutínio moral por que os católicos heterossexuais não passam. Esses não são demitidos por usarem anticoncepcionais ou manterem relações sexuais antes do casamento. Por que então não julgar os católicos por não receberem bem os imigrantes, não darem de comer a quem tem fome ou não visitarem os doentes? Segundo o evangelho de São Mateus, deixar de fazer essas coisas implica em passagem livre para o inferno.

Há cinco anos Francisco assumiu o papado, revelando-se um líder que valoriza a misericórdia e usa um tom mais receptivo em relação à comunidade LGBT, o que ajuda a resgatar a Igreja do cristianismo belicoso que afasta os fiéis – mas enquanto sua hierarquia não conseguir encontrar formas mais tangíveis de institucionalizar um compromisso com os direitos dos LGBT, o êxodo de adeptos continuará. As pesquisas mostram que a grande maioria dos católicos apoia o casamento homoafetivo, e a oposição da Igreja só faz afastar os jovens.

Segundo o Instituto de Pesquisa de Religião Pública, independente, mais que outras crenças, quem foi criado no catolicismo tem muito mais chances de deixar a religião por causa do tratamento negativo dessa a gays e lésbicas. Demitir católicos por serem LGBT e usar uma linguagem degradante para se referir aos membros dessa comunidade só diminui a credibilidade da Igreja para falar de justiça, amor e dignidade.

Se o primeiro passo para a mudança é ouvir com atenção, o bispo John Stowe, de Lexington, no Kentucky, acertou ao discursar no encontro nacional de católicos LGBT, no ano passado. “Em uma Igreja que nem sempre valorizou ou recebeu bem sua presença, precisamos ouvir suas vozes e levar suas experiências a sério”, disse ele.

É hora de garantir que essa seja mais do que uma frase de efeito para ganhar aplausos.

Publicado originalmente noThe New York Times, por John Gehring, diretor do programa católico da Faith in Public Life e autor de "The Francis Effect: A Radical Pope's Challenge to the American Catholic Church".

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