Saudada como um dos maiores avanços na luta contra a epidemia global de HIV, o vírus causador da Aids, nos últimos anos, a chamada profilaxia pré-exposição (PrEP) pode se tornar uma faca de dois gumes neste processo. Pelo menos é o que indica estudo realizado com quase 17 mil integrantes das comunidades de homens gays ou bissexuais de duas das maiores cidades da Austrália, publicado nesta quarta-feira no periódico científico “The Lancet HIV”.

Isso porque, no estudo, os pesquisadores observaram que embora a adoção da PrEP – em que o indivíduo toma uma pílula com uma combinação de remédios antirretrovirais diariamente de forma prevenir a infecção pelo HIV – tenha sido rápida e maciça nestas comunidades, ela foi acompanhada por um igualmente rápido e disseminado abandono do uso de camisinhas nas relações, ainda considerado uma das principais estratégias para evitar a doença, inclusive por homens que não aderiram à PrEP.

Assim, embora o nível de proteção nestas comunidades de gays australianos tenha continuado relativamente alto nos cinco anos do estudo, da ordem de 70%, os pesquisadores temem que o declínio no uso de camisinhas acabe por minar os benefícios de longo prazo da adoção da PrEP em nível populacional. Diante disso, eles recomendam que futuras introduções da estratégia medicamentosa de prevenção em outros locais e países sejam acompanhadas por campanhas de promoção do uso de camisinhas que destaquem a importância da conjugação de ambas estratégias para assegurar a eficácia do programa.

– Nossos achados sugerem que a rápida adoção da PrEP perturbou o uso de camisinhas em um nível comunitário – explica Martin Holt, professor da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, e líder do estudo. – Mas ainda é muito cedo para observar efeitos de longo prazo do maior uso da PrEP e do declínio no uso de camisinhas nos diagnósticos de HIV em Victória e Nova Gales do Sul. A PrEP tem sido vista como uma divisora de águas na prevenção do HIV, mas o declínio no uso de camisinhas pode impedir sua eficácia de longo prazo em nível populacional. Precisamos de melhores monitoramento e avaliações para entender os efeitos da PrEP nas práticas sexuais no nível comunitário tanto entre usuários da PrEP quanto não adeptos. Se o uso sustentado das camisinhas é importante, seria sábio implementar campanhas educativas comunitárias que promovam o uso dos preservativos à medida que a PrEP for sendo introduzida.

O estudo australiano é um dos primeiros a avaliar os efeitos da adoção da PrEP no uso de camisinhas em nível comunitário, acompanhando o engajamento em comportamentos sexuais seguros antes e depois da introdução da estratégia de prevenção nas províncias de Victória e Nova Gales do Sul em março de 2016. O uso regular de medicamentos antirretrovirais como na PrEP já se mostrou altamente eficaz na prevenção da infecção pelo HIV, tanto que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a estratégia seja disponibilizada para populações consideradas mais vulneráveis à infecção pelo vírus, o que inclui homens gays e bissexuais, trabalhadores do sexo e usuários de drogas.

Antes que a eficácia da PrEP tivesse sido demonstrada em ensaios clínicos, especialistas já expressavam preocupação de que a estratégia elevasse o engajamento em comportamentos de risco. E, de fato, estudos anteriores verificaram que o sexo sem camisinha se tornou cada vez mais frequente entre os usuários da PrEP, sem, no entanto, diminuir sua eficácia na prevenção da infecção se a adesão à estratégia for mantida.

Mas até agora pouco se sabia sobre como a adoção da PrEP influenciaria os comportamentos em um nível comunitário, particularmente entre homens gays ou bissexuais que não adotassem a estratégia. Segundo os pesquisadores, isso é muito importante porque o declínio no uso de camisinhas pelos que não estão tomando os remédios poderia minar o efeito populacional da estratégia ao aumentar o número de atos sexuais durante os quais o HIV pode ser transmitido.

Assim, neste estudo os pesquisadores analisaram dados dos Levantamentos Periódicos da Comunidade Gay de Melbourne e Sydney, realizados anualmente e que incluem dados sobre o uso de camisinhas, completados antes (2013 a 2016) e depois (2017) da oferta em grande escala da estratégia via projetos financiados pelo governo australiano nas províncias de Victoria e Nova Gales do Sul, onde as cidades estão localizadas, respectivamente.

Participantes que se identificaram como homens e relataram terem tido sexo com parceiros também homens nos últimos cinco anos foram ou recrutados on-line (idade mínima de 16 anos) ou em locais ou eventos frequentados pela comunidade gay (idade mínima de 18 anos). Eles responderam questionários sobre práticas de prevenção do HIV e comportamentos sexuais recentes, permitindo aos pesquisadores observarem tendências no uso ou não de camisinhas nas relações anais, a frequência dessas relações com parceiros ocasionais e uso da PrEP entre 16.827 homens gays ou bissexuais do país.

Os resultados mostraram que entre 2013 e 2017, a adesão à PrEP por homens HIV-negativos aumentou dramaticamente de 2% (44 entre 2.324 homens) para 24% (783 de 3.290 indivíduos). Já avaliando apenas homens que tiveram sexo com parceiros ocasionais, a proporção de homens que aderiram à PrEP e relataram terem tido relações anais sem camisinha com eles subiu de 1% (26 de 2.692) em 2013 para 16% (652 de 4.018) em 2017, enquanto o uso consistente dos preservativos caiu notavelmente de 46% (1.360 de 2.692 homens) para 31% (1.229 de 4.018). Mais importante ainda, segundo os pesquisadores, é que entre os homens HIV-negativos e não testados e não usuários da PrEP, a prática de sexo anal sem camisinha com parceiros ocasionais subiu de 30% (800 de 2.646 homens) em 2013 para 39% (1.166 de 2.986) em 2017.

– Nosso estudo encontrou uma notável redução no uso frequente de camisinhas quando a PrEP foi introduzida em Melbourne e Sydney entre 2016 e 2017 – conclui Holt. – Se os indivíduos que não estão tomando a PrEP se sentem mais seguros, eles podem usar camisinhas menos frequentemente porque acham que o sexo sem camisinhas está menos arriscado pois o número de usuários da PrEP aumentou. As consequências de longo prazo desta mudança de comportamento em nível comunitário ainda não estão claras. Mas é possível que a transmissão do HIV tenha um rebote entre homens HIV-negativos ou não testados que não estejam usando a PrEP. Nossos achados serão essenciais para ajudar outras cidades e países implementarem programas de PrEP bem-sucedidos.

(Via O Globo)

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