Em 17 de junho de 2008, dia em que completava 71 anos, o deputado federal Clodovil Hernandes vestia um blazer grafite, gravata-borboleta roxa, camisa branca e óculos de leitura. Encerrou seu pronunciamento com uma citação de Lord Byron: “‘Ao homem não amo tanto/ porém muito à natureza.’”

“Deputado Clodovil, me permite um aparte?”

Com a arrogância que o fez ser perseguido pelo Pânico na TV, Clodovil cedeu a palavra ao deputado Jair Messias Bolsonaro. “Se o Parlamento tivesse a pureza de alma que Vossa Excelência tem o Brasil estaria muito melhor. Sou diferente de Vossa Excelência em muita coisa, mas na pureza, confesso, de vez em quando, penso como Vossa Excelência.” Clodovil agradeceu a Bolsonaro pela delicadeza.

Estilista e apresentador de TV, Clodovil tivera, em 2006, quase 494 mil votos, sendo o terceiro mais votado no estado de São Paulo, maior colégio eleitoral do país. Pela primeira vez um homossexual assumido ingressava na Câmara dos Deputados.

Conhecido pela verve e pelo temperamento conflituoso, Clodovil preenchia todas as cédulas de todas as formas de conservadorismo moral. Era contra o casamento entre homossexuais: “O que é realmente certo diante do poder superior, que a gente chama de Deus, é o homem e a mulher porque eles geram uma outra alma que vem ao mundo”. Era contrário à Parada Gay de São Paulo: “Eu teria vergonha de ser esse tipo de gente”. Foi processado por racismo. Achava ótimo que os empregados não saberem o que é caviar – para não o comerem. Nas páginas dos gays de direita, Clodovil é chamado de homossexual “raiz”, o verdadeiro, em contraposição ao “nutella”, o falso.

Nos dois anos e quase três meses de mandato, interrompidos por sua morte em 17 de março de 2009, Clodovil apresentou uma PEC que reduzia o número de deputados na Câmara de 594 para 250, um projeto de resolução e outros 16 projetos de lei, sete deles arquivados. Um único projeto de lei referia-se aos direitos LGBT. Nele, o deputado propunha uma alteração no Código Civil para que casais homossexuais pudessem ter contrato de união civil. O projeto, de 2007, segue parado na Câmara.

Entre os sete projetos arquivados está o que obrigava a inclusão do exame de próstata na lista de testes em trabalhadores homens com mais de 40 anos. E outro que garantiria atendimento médico e psicológico imediato às vítimas de violência sexual. Entre seus três projetos de lei aprovados, está o que autoriza o enteado a adotar o nome da família do padrasto.

Seu mandato, passados quase dez anos de sua morte, porém, seria lembrado por suas querelas no Plenário.

A primeira, em fevereiro de 2007, na abertura do ano legislativo. Ao (tentar) discursar para uma plateia dispersa e ruidosa, Clodovil interrompeu o pronunciamento e comparou a Câmara “a um mercado”. Fez-se o silêncio.

Em maio de 2007, Clodovil declarou que as mulheres estavam “se tornando ordinárias” e “trabalhando deitadas e descansando em pé”. A declaração revoltou parte da bancada feminina da Câmara. Por esse motivo, a deputada Cida Diogo (PT) colheu assinaturas para um requerimento contra o deputado. Provocado, Clodovil disse à deputada que ela não deveria se ofender porque era “uma mulher feia” e não poderia “se prostituir”. Recomendou que fosse cuidar da família ou fazer plástica.

Em 9 de dezembro 2014, Bolsonaro declarou na Câmara dos Deputados e em entrevista ao jornal Zero Hora, do Rio Grande do Sul, que não estupraria a deputada Maria do Rosário (PT) porque ela “não merecia”. Pela declaração, Bolsonaro foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal a indenizar a deputada em 10 mil reais por danos morais e a publicar retratação em seus perfis na internet e em jornal de grande circulação. A decisão foi mantida pelo Superior Tribunal de Justiça – STJ. O caso aguarda julgamento no STF, onde, desde junho de 2016, o pré-candidato é réu por incitação ao crime de estupro e injúria pela mesma declaração.

Nos principais grupos fechados e páginas dos Gays de Direita no Facebook, onde Clodovil e Bolsonaro são figuras referenciais, o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), em março, teve pouca repercussão. Na página Gay de Direita, Gay Direito, que tem mais de 13 mil seguidores e Clodovil na foto de capa, foi feito um meme da vereadora, fazendo piada com sua figura “Antes da Federal” e “Depois da Federal”, em alusão à intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro. Um dos membros criticou a imprensa por questionar o silêncio de Bolsonaro sobre a morte da vereadora. Para eles, o pronunciamento seria uma forma de a imprensa “ajudar no processo da Maria do Rosário no STF”.

No grupo fechado Gays de Direita Brasil, com 295 membros, a morte deixou um dos membros em crise existencial: “Gente, pq 90% ou mais dos gays são de esquerda??? (…) Não apenas eles mas tbm (sic) amigos e familiares meus estão sendo manipulados por essa farça (sic) do PSOL.”

Entrevistados para a reportagem Gays de direita, de ÉPOCA, também falaram sobre a vereadora. Febo afirmou, por WhatsApp, que “lastima a morte de Marielle Franco, mas mais ainda pela vida de policiais e vítimas do comunismo e islamismo, coisas que a esquerda não enxerga”.

Em sua segunda entrevista, no vão do MASP, Smith Hays afirmou que a morte foi “infelizmente um caso muito triste da violência no Rio de Janeiro. Por mais que ela seja do PSOL, foi um ser humano que morreu.” Em sua página, o tom foi outro: “Na sanha da loucura mental em que vivem, (pessoas como Marielle) acabam sendo vítimas das próprias ideias e atitudes”.

O vereador Fernando Holiday recebeu “com certo choque” a notícia da morte, se incomodou com “a relativização da vida” e achou que “a politização do velório foi lamentável”.

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