Um caso de homofobia chocou moradores do Sul do Rio de Janeiro na última segunda-feira (11). Duas empresárias de Resende relataram nas redes sociais o preconceito que sofreram de uma cliente da loja de doces, no bairro Campos Elíseos.

Enayle Psi, de 27 anos, postou fotos da captura de tela do celular onde estão as mensagens trocadas entre ela e a cliente. A mulher — que não teve a identidade divulgada — pediu para falar com o dono do estabelecimento e disse se sentir constrangida ao ser atendida por uma “moça”, entre aspas.

Segundo a cliente, ela se sentiu envergonhada, pois a amiga é de uma igreja e ficou aborrecida, porque já tinha recebido alguns doces do local. A mulher completou dizendo que não é preconceituosa, mas que a orientação sexual das proprietárias pode atrapalhar nas vendas. “Não tenho nada contra, mas como sua empresa trabalha com os mais diversos tipos de pessoas, não acho que passe uma boa imagem uma sapatão atendendo”, escreveu na mensagem.

A mulher ainda xingou e menosprezou o trabalho do casal. “Esperar o que de duas mulecas, que não sabem nada da vida. Continuem vendendo doce mesmo, não vão conseguir nada além disso com essa escolha que fizeram”, hostilizou via mensagem de celular.

“Para aqueles que assim como nós lutam pela liberdade de amar, não recuem, não se intimidem, não somos mais minoria”

 

 

 

 

Combate ao preconceito

A loja foi uma opção que elas encontraram para “trabalhar com amor e serem ouvidas”. As duas, uma economista e a outra psicóloga, decidiram criar o estabelecimento em março de 2017. A Natalí já fazia doces e Enayle teve a mãe como inspiração, que criou os filhos fazendo bolos para venda.

Além disso, Enayle foi demitida do último emprego após denunciar um assédio por parte do chefe. “Fiquei triste mas foi importante, o processo ainda está correndo e descobri que minha denúncia deu força a outras que já tinha contra ele. Nesse meio tempo, a Natalí começou a sofrer preconceito no novo trabalho, a dona da loja alegava que o jeito que ela se vestia não passava seriedade para os clientes e que os que não concordavam com a orientação sexual dela, não frequentaram mais a loja”, contou, completando que “quem é diferente, quem não se encaixa naquele modelo proposto por uma suposta maioria, acaba sofrendo.”

Esta não foi a primeira vez que as duas passaram por esse tipo de situação. Os olhares curiosos ou maldosos já se tornaram comum quando elas saem na rua, mas elas estavam acostumadas com preconceitos velados, ou seja, não verbalizados. “Sempre elogiam muito nosso trabalho, e nossa vida pessoal nunca foi pauta até o momento. Mas acredito que nossa orientação sexual seja levada em consideração por algumas pessoas que acabam nem se tornando clientes”, observou.

Sobre as mensagens da cliente, Enayle contou ter ficado nervosa e não ter acreditado inicialmente. “É uma situação tão desconfortável que a vontade é fingir que não aconteceu, mas não podemos! Por isso decidimos juntas, postar [nas redes sociais]. Não imaginávamos a repercussão, e ainda estamos tentando assimilar. Recebemos tanto amor, que aquele sentimento ruim gerado pelo preconceito quase não existe mais”, afirmou, agradecendo a todos que apoiaram a decisão.

O casal ainda não decidiu se vai registrar a ocorrência na delegacia. “Não queremos o mal de ninguém, o ódio se combate com amor, o preconceito com informação, divulgação, com voz. Não queremos um ódio direcionado, postamos para reforçar que o preconceito existe, e nos afeta de várias formas”, disse.

Há pouco, as donas da loja fizeram um post explicando que foram censuradas pelo Facebook e pelo Instagram. Vejam:

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