Quando Katya, megaestrela do reality show norte-americano RuPaul’s Drag Race anunciou, ao vivo, em seu Instagram, que vai tirar férias, os fãs foram certamente pegos de surpresa. Nos últimos meses, Katya, que tem sido transparente sobre questões ligadas a saúde mental e dependência química, ganhou fama como uma das maiores estrelas do universo drag.

“A saúde é a coisa mais importante para mim… estou ok”, ela disse aos fãs, falando do tempo que pretende dar à sua profissão. “Não estou morrendo porque quero viver. Mas preciso tirar férias, como uma pessoa normal. As pessoas que me estão ouvindo vão entender, elas poderão entender.”

Para vários dos participantes da temporada de RuPaul’s Drag Race: All Stars que vai começar em breve, o momento de vulnerabilidade de Katya é uma brecha que abre caminho para uma discussão difícil, mas necessária: a saúde mental na comunidade LGBTQ.

Depois de aparecer no programa, construir uma identidade artística própria e formar uma base de fãs, as artistas muitas vezes começam a encarar desafios singulares.

Exemplos à seguir

Entre servir de exemplo para jovens marginalizados e fazer malabarismos para coordenar uma programação intensiva de turnês, encontros com fãs, redes sociais e a pressão de trabalhar em ambientes onde drogas e álcool estão facilmente disponíveis, ser drag queen é uma carreira que exige muito equilíbrio e cuidado de si mesmo por parte da artista.

“Pessoalmente, passei minha vida inteira lidando com depressão grave e ansiedade. Mas falo muito abertamente sobre isso”, disse ao HuffPost a drag queen Thorgy Thor, que participou da oitava temporada do Drag Race. “Cheguei a um ponto em minha vida em que as coisas ficaram um pouco demais. É hora de recuar.”

“Veja como ganhamos a vida! É todos os dias, o dia todo – nunca dormimos, estamos sempre fazendo uma performance. As pessoas no metrô esperam que a gente ‘entre no astral da curtição’ mesmo quando não estamos com a menor vontade ou estamos simplesmente fazendo compras no supermercado”, disse Thor. “Temos que ficar a caráter o tempo inteiro! Especialmente sendo performer no espectro gay, você enlouquece. Mas é preciso saber quando basta. Eu não sei dar um basta, mas Katya sabe.”

Como disse Alexander Leon, do jornal britânico The Guardian, em maio de 2017, “a doença mental e ser queer muitas vezes andam de mãos dadas”. Os jovens LGBTQ têm chances três vezes maiores de cometer suicídio que os jovens heterossexuais, e quase metade das pessoas transgênero enfrentam ansiedade e depressão. Isso se deve a vários fatores, segundo a organização sem fins lucrativos Mental Health American, incluindo “estigma social, discriminação e negação dos direitos civis e humanos” dos transgêneros.

Quando as realidades da condição queer e da saúde mental se somam às pressões da fama, o quadro completo do sucesso no Drag Race se apresenta um pouco mais complicado. “Neste setor você está sozinha e tem que expandir seus limites físicos e criativos”, disse ao HuffPost Trixie Mattel, que participou da sétima temporada. “E a pressão das pessoas que dizem ‘amo você’. Cada vez que alguém fala ‘amo você’, é como se você estivesse colocando uma moeda no porquinho e o porquinho estivesse ficando mais pesado.”

Mattell falou que a pressão é ainda maior para os participantes que enfrentam problemas de saúde mental. Para elas, disse a drag, “participar do ‘Drag Race’ é como levantar pesos – tentar levantar 25 quilos, por exemplo, quando você deveria estar levantando dez”.

“Mas, no caso de Katya, acho que ela ainda está procurando o ponto de equilíbrio. Basicamente, ela está tirando o ano de folga. Acho que ela vai voltar a fazer drag, mas vai voltar como se fosse uma professora substituta, aparecendo na hora que tiver vontade e voltando a dormir quando quiser. Ela vai ser nossa nova cometa de Halley do drag.”

Cada vez que alguém fala ‘amo você’, é como se você estivesse colocando uma moeda no porquinho e o porquinho estivesse ficando mais pesado. – Trixie Mattel

Para as participantes Chi Chi Devayne e BenDeLaCreme, a discussão emergente sobre saúde mental e performers queers cala fundo. Ambos a veem como uma questão que precisa ser humanizada e precisa ser discutida mais extensamente.

“Eu me identifico totalmente, porque isso é algo do qual venho falando nas últimas semanas”, disse ao HuffPost Chi Chi, vista pela primeira vez na oitava temporada. “Às vezes você sente que tudo isso vai lhe enlouquecer, especialmente se você é como eu, alguém que vem de uma cidade pequena, uma pessoa normal no meu dia a dia, e de repente você vai parar debaixo dos holofotes e todo mundo a conhece.”

Ben DeLaCreme, da sexta temporada, falou ao HuffPost que espera que, graças ao fato de Katya ter deslanchado esse assunto com seus muitos fãs jovens, outras pessoas queer influentes comecem a falar abertamente sobre sua própria experiência com saúde mental e identidade LGBTQ – e que o diálogo ajude a superar o estigma social.

“Acho que, de modo geral, não falamos muito abertamente ou honestamente sobre saúde mental”, ela opinou. “Acho que embora cada vez mais pessoas estejam vindo a público falar desses assuntos e assim os façam ser menos tabu, muita gente ainda tem medo de falar disso na primeira pessoa ou tem medo de trazer essa questão para nossas próprias vidas.”

“A realidade”, ela acrescentou, “é que eu diria que esse problema afeta a todas nós de uma maneira ou outra.”

*Este post foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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