Cada vez mais é notório vermos ideologias sendo “flexibilizadas” para atender os desejos dos seus arautos. Eu vi liberais que pregam menos estado ao mesmo tempo que querem que esse estado vigie o útero das mulheres e prenda quem usa qualquer droga. Noto políticos falando de moral e bons costumes enquanto assistem filmes pornô no celular em plena câmara ou fazem festinhas com “moças profissionais” (todo meu respeito aqui às moças do sexo e aos atores). Senhores que se dizem seguidores de Deus mas que na verdade amealham fortunas e fomentam ódio, enfim, indiossincrasia tem sido uma constante no nosso Brasil.

Mas uma coisa que me gritou aos olhos esses dias, foi que um grupo que se dizia de liberais, resolveu mostrar seu lado mais pudico e atacar uma exposição.  É muito difícil decidir o que é arte, Pollock é arte para alguns e horrível para outros, tenho certeza que muitos acham o Romero Britto brega, enquanto outros pagam uma fortuna.

A nudez faz parte da arte, primeiro porque o corpo humano não é algo feio, é lindo normal, natural. Toda criança já viu o corpo nu de seus pais e nem por isso virou uma hiperssexualizada ou algo do gênero. Chamar isso de pedofilia, chega a ser um desrespeito com as crianças que são realmente molestadas agredidas, violadas.

As obras da exposição Queermuseu seguramente expõem, inclusive para vários críticos que sequer foram visitar, aquilo que pode ou não ser suportado. A variedade da sexualidade humana. Tanto a exposição, quanto performance no MAM gritam que a sexualidade humana, o corpo humano, não visa somente a reprodução, como durante séculos os moralistas tentam apontar. O corpo humano pode ser uma conseqüência da busca pelo prazer.  Mas nem sempre; a nudez pode ser somente o belo, a coragem, inclusive a pureza. Quando vi pela primeira vez, a cena da criança com o cara nu, notei que ali nada havia de sexual, mas de singelo. Uma mãe, que me pareceu livre dos pudores corriqueiros, mostrou uma performance com um nú artístico ao filho. Depravado é quem consegue ver nisso um ato sexual ou traumatizante. A histeria do caso, nos mostra que a malicia vem da cultura, que o medo e vergonha do corpo são construídos e que o grave ali, foi um canalha que filmou uma criança, sua mãe e resolveu julgar a relação mãe e filho.
Já no caso do QueerMuseu, havia um outro lado, era uma expressão artística de diferentes formas de ser sexual, de se mostrar o diferente. Se não é pra isso que a arte serve, por favor, me expliquem a finalidade.

Um amigo (Vinicius) me disse uma frase que repito na integra “A expressão artística, tributária da dessexualização da pulsão, pode fazer tal verdade emergir diante do olhar. Entretanto, a alguns não basta o fechar das pálpebras, mas é preciso que se fechem também as portas de um museu.”

Os tais liberais, se tornaram puritanos, com um discurso reacionário. Enquanto o Ministério Público afirma que não houve abuso, eles seguem na sua pós-verdade gritando que sim, e pior, com uma legião de apoiadores.  Me apavora ver a cultura censurada, julgada, controlado por este discurso reacionário, que vem cada dia mais forte, como contraponto à diversidade. Ao meu ver, estes moleques e seus discípulos tem muito medo. Medo dos seus próprios desejos, medo do que fariam se livres, medo de conhecer o próprio desejo. Nesse pavor, não lhes bastou não ir, ou evitar a presença, fizeram ferrenha luta, para que ninguém mais tivesse o direito de ir, de julgar todos que acham aquilo uma forma valida e bela de arte. Enfim, usaram de um cargo público (vereador), para imporem o que pode ou não pode ser arte. Viraram os arautos do belo, dos bons costumes, e os especialistas em educação  infantil. Reviveram a lista de “obra degenerada do Fuher

O Banco Santander teve outro tipo de covardia, concluiu que sua clientela era de moralistas e sucumbiu aos novos censores, cancelando uma exposição, que seguramente, pelas regras da lei Rouanet, eles já deveriam saber exatamente do que se tratava. E pior, no desespero de obedecer aos novos ditadores dos bons costumes, esqueceram que existem leis e a infrigiram. Cancelar uma exposição, feita através do mecenato, sem dialogar com o MINC e a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) é fraude contra o sistema financeiro.

Art. 40. Constitui crime, punível com reclusão de dois a seis meses e multa de vinte por cento do valor do projeto, obter redução do imposto de renda utilizando-se fraudulentamente de qualquer benefício desta Lei.
§ 1o No caso de pessoa jurídica respondem pelo crime o acionista controlador e os administradores que para ele tenham concorrido.
§ 2o Na mesma pena incorre aquele que, recebendo recursos, bens ou valores em função desta Lei, deixa de promover, sem justa causa, atividade cultural objeto do incentivo.

Temos nesse jogo então, conservadores que fingem ser liberais, buscando uma nova claque, um banco que tentou se mostrar inovador e na verdade foi covarde, imprudente e inconsequente, e uma turba, desesperada para julgar e atacar.

Esse texto não quer dizer que a mostra era maravilhosa, nem que a exposição do homem nú foi uma brilhante ideia. Inclusive acho que esse tipo de atividade deve conter aviso, pois ainda temos uma boa parte da população que acha o corpo humano uma coisa pornográfica (algo que só muita repressão explica). Na verdade, não me importa seu gosto ou mal gosto artístico, Importa que arte é livre, é inovadora, quebra costumes, infringe tabus, move o mundo. Desconheço museu no mundo que não tenha alguma nudez afinal, por incrível que lhes possa parecer, o corpo humano é lindo, não é sempre sexual e somos seres absolutamente capazes de nos controlar e de entender a diferença de uma mostra artística e um cinema pornô, inclusive as crianças.

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