Infelizmente, a transfobia fez mais uma vítima no Brasil. Dessa vez foi Alexandre Brito Pinto, de 41 anos, também conhecido como Lili. Ela foi assassinado na noite do último domingo (27), na cidade de Cachoeira, na Bahia.

A transexual era presidente da associação do Grupo Gay do seu município. Segundo informações preliminares da policia local, a vitima foi violentamente morta a tiros, por três homens que dispararam contra ela de um carro modelo Honda Civic.

Em nota, o GGB (Grupo Gay da Bahia) se manifestou: “Cobraremos as autoridades agilidade nas investigações sobre a morte de Lili. Esses crimes não podem ficar impunes,” declarou o presidente da ONG, Marcelo Cerqueira.

De acordo com relatório divulgado pelo GGB, este é 25° homicídio no Estado, motivado por intolerância a comunidade LGBT.

Confira a nota na íntegra:

Queremos justiça para Lili!

No final dessa noite de 27 de agosto de 2017 fomos atravessadas pela triste notícia do assassinato de Xaynna Shayuri Morganna, a Lili, presidenta da Associação Grupo Gay de Cachoeira, companheira e liderança do movimento LGBT que atuava na organização das paradas da diversidade de Cachoeira desde a a primeira edição, em 2010.

Pessoas que integram o Grupo de Pesquisa e Estudos em Lesbianidades (Les), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, ouvem correntemente, em Cachoeira, cidade histórica e heróica por seu protagonismo na luta pela independência da Bahia e do Brasil, que Cachoeira é “tolerante” para com as pessoas LGBTs. Especialmente depois da vinda da UFRB para a cidade, com seus cursos mais arejados, na área de humanas e artes, com parte de estudantes e professores mais progressistas, que defendem a liberdade de expressão e se posicionam contra variados tipos de preconceitos, promovendo ações que buscam combater o racismo, o machismo e a LGBTfobia, à despeito dos preconceitos que ainda existem dentro da universidade, entre os próprios docentes inclusive.

Por tudo isso, pelas meninas e meninos LGBTs universitárias/as que andam nas ruas de mãos dadas e trocam carinhos nas ruas e bares da cidade, supõe-se que Cachoeira é uma cidade que respeita a diversidade sexual e de gênero. Mas estamos falando do respeito a que pessoas LGBTs? Certamente não estamos falando de corpos de lésbicas, gays e transexuais pobres, que tiveram pouco acesso à escolarização e a outros direitos sociais e que são, por exemplo, expulsos das escolas por preconceito não só dos colegas estudantes, mas também de professores que ainda não conseguem trabalhar de uma forma inclusiva as questões da diversidade de gênero e de sexualidade.

Não estamos falando lésbicas, gays e transexuais pobres que não conseguem acessar os serviços de saúde, não apenas porque ele não é eficiente, mas porque não existem políticas que tratem com dignidade e igualdade as pessoas LGBTs. Não estamos falando de lésbicas, gays e transexuais pobres que são desrespeitados, violentados e expulsos de suas famílias por intolerância. Não estamos falando de lésbicas, gays e transexuais pobres que não apenas são ridicularizadas e desrespeitadas por agentes do Estado, que deveriam garantir seus direitos de cidadania, mas de pessoas que sequer têm acesso à Justiça porque são consideradas cidadãs de segunda classe. A companheira Lili se enquadrava nesse grupo que não tem lugar na sociedade, que era tida como abjeta, como anormal, que não era vista como cidadã. É uma vida que não importava para essa sociedade que não está nem aí para nós LGBTs.

Por tudo isso queremos justiça para Lili!

Queremos o direito de existir respeitado! Porque é disso que estamos falando! Nós não temos direito a existir em uma sociedade LGBTfóbica. Somos vidas que não importam! Somos agredidas, violentadas assassinadas simplesmente porque existimos. A cada 25 horas uma pessoa LGBT foi assassinada em 2016 simplesmente pelo fato de ser LGBT!

Pessoas LGBT são humilhadas por sua diversidade sexual e de gênero, porque os ditos “valores” defendidos pela sociedade não respeitam a nossa existência, o nosso afeto, o nosso amor, mas toleram as violências e opressões masculinas, toleram as imorais negações de direitos aos grupos minoritários da sociedade, fecham os olhos para isso e nada fazem para mudar.

Valores defendidos por uma sociedade não nos reconhece como família e assim negam nosso acesso às politicas públicas, mas que também contribuem para a manutenção da opressão e submissão de mulheres a seus homens/maridos que as oprimem, diminuem, violentam no espaço privado de suas casas. Valores de alguns líderes religiosos medíocres e hipócritas que vendem, rifam a fé às custas da ignorância e desesperanças dos seus fiéis, ante as desigualdades sociais e sofrimentos pessoais, e estimulam a violência contra pessoas LGBT e a sua exclusão dos diversos espaços da sociedade.

Por tudo isso queremos sim discutir sobre sexualidade e gênero nas escolas, porque dessa forma refletiremos sobre o respeito às diferenças, o respeito às mulheres, o empoderamento das meninas de forma a não torná-las submissas. É preciso e ensinarmos as crianças a não reforçarem as violências e preconceitos machistas, sexistas e LGBTfóbicos, de forma que mais jovens e pessoas LGBTs tenham a sua existência e direitos respeitados e não sejam satirizados ou violentados nos diferentes espaços da sociedade. Para que não se tornem LGBTfóbicos sem crítica ou respeito às diferenças assassinando outras Lilis em Cachoeira ou em qualquer outro lugar.

Manifesto escrito pela professora Simone Brandão Souza e subscrito pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas em Lesbianidade, Gênero, Raça e Sexualidade (Les), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, e pelo Grupo de Pesquisa em Cultura e Sexualidade (CUS), da Universidade Federal da Bahia.

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